“T2 Trainspotting” e a reverência aos cults

Trainspotting2

Vi T2 Trainspotting há uma semana e desde então tenho pensado sobre o filme. Fortemente calcado no saudosismo, T2 Trainspotting é uma excelente propaganda para o primeiro filme, feito em 1996. Você pode até sair do cinema querendo revê-lo, mas não sem antes correr para o Netflix para lembrar das cenas icônicas de Trainspotting. E foi o que eu fiz.

 

Envelhecidos 20 anos, todos os personagens principais estão de volta. É como se o tempo tivesse e não tivesse passado. Isso porque, por um lado, a sintonia entre Ewan McGregor (Renton), Ewen Bremmer (Spud), Jonny Lee Miller (Sick Boy) e Robert Carlyle (Begbie), como no primeiro filme, continua intocável. Temos a impressão de que os atores só estavam esperando o status de cult do primeiro filme se tornar insustentável para que, com um riso de canto de boca, revivessem seus papéis icônicos. No entanto, 20 anos são realmente muito tempo, quase uma geração, e isso é visível: os personagens envelheceram mal, cheios de remorso, sem grandes carreiras ou perspectivas.

 

Me parece que para que T2 Trainspotting dê certo, o diretor Danny Boyle e o roteirista John Hodge devem fazer inúmeras referências à produção original. O que se vê é que algumas dão certo e outras não.

 

Como pontos positivos, além da química entre o elenco mencionada acima, a sequência das frases que seguem o bordão Choose Life fica como um dos pontos altos do filme. Atualizadas, agora as “escolhas”, soltadas de uma vez em outro monólogo de Renton, dizem agora respeito ao Facebook, Instagram, Twitter, Reality TV, Revenge Porn, etc.

 

Também são pontos altos do filme a nova interação entre Renton e Spud (na linha “você é um viciado, pois seja um viciado em outra coisa”) e a atuação de Lee Miller, que dá profundidade, emoção e complexidade a seu personagem, dessa vez mais Simon do que “Sick Boy”.

 

Se o tom rememorativo de T2 Trainspotting ficasse apenas em algumas referências e se Boyle e Hodge arriscassem um pouco mais no roteiro, teríamos um filme muito mais atrativo. Não obstante, vemos o mote do primeiro preguiçosamente se repetir.

 

Como em 1996, a grande reviravolta da história se dá por meio de uma traição. E foi essa repetição que fez o filme me perder. Tanto tempo de espera, com uma história que poderia ir por tantos caminhos e nos deparamos com o mesmo: um personagem passando a perna nos outros. A cópia ainda falha porque nem parece crível. Se em Trainspotting Renton rouba seus amigos num plano simples e improvisado, em T2 Trainspotting passa-se por cima de toda a complexidade que o estratagema da prostituta Veronika pressupõe, tentando com isso imitar aquela facilidade. Não há grandes empecilhos em roubar uma maleta da mão de amigos bêbados e drogados, mas o mesmo não se pode dizer de uma operação bancária que envolve fraude de assinatura, transferência eletrônica e uma polpuda quantia. Todos os fatores são deixados de lado porque o que importa é reviver tudo.

 

No final, aceitamos com amargura, apesar de todos os pesares, que gostamos do filme! Sim, é bom! Mesmo “preguiçoso”, T2 Trainspotting é uma bonita homenagem à formula que deu tão certo nos anos 1990. Podia ser muito melhor, mas como é bom ter a “gangue” de volta.

 

Temos que confessar que não víamos a hora de Renton correr tresloucado pelas ruas de Edimburgo – e isso também se repete.

 

P.S. Outro prazer foi ver T2 Trainspotting acompanhada. Para minha sorte, descobri que meu companheiro de sessão e eu compartilhamos da mesma ansiedade para conversar sobre o filme. Fiquei muito feliz e surpresa quando, mal começados os créditos, ele me perguntou “Gostou do filme?” e com um sorriso no rosto e uma respirada funda comecei “Então, …”.

Autor: conversandosobrefilmes

Sou doutoranda em História e tento ver filmes com regularidade. Publico aqui sobre obras que de alguma forma me afetaram. Como o nome do blog diz, é uma conversa e não uma análise ou crítica aprofundada. Bem-vindos! :)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s