“EX_MACHINA” na intersecção entre robôs e humanos

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EX_MACHINA mostra que uma ficção científica não precisa ter um orçamento milionário para ser eficiente e instigante.

 

O filme inicia-se com Caleb, um programador jovem que ganha determinado concurso. Não há muitas explicações sobre seu prêmio. Na sequência seguinte descobrimos que o “prêmio” consiste em passar uma semana na casa do fundador da empresa para a qual trabalha, a Bluebook. O CEO da Bluebook é Nathan, um excêntrico e solitário geek que aparentemente recebe toda semana um premiado diferente. Além da estadia no mausoléu tecnológico, Caleb poderá ajudar Nathan em sua secreta pesquisa: avaliar se o exemplar de Inteligência Artificial no qual Nathan trabalha consegue passar no Teste de Turing.

 

Em linhas gerais, o Teste de Turing consiste em avaliar a capacidade de um robô de pensar. Nas condições ideais, o experimento necessita de três componentes: dois humanos, sendo um o chamado “interrogador”, e o computador –t odos separados entre si. Durante o teste, o humano fará perguntas tanto para o computador quanto para o seu semelhante. Se após as respostas dadas o humano interrogador não souber distinguir entre o outro ser humano e o computador, a inteligência artificial passou no teste.

 

Na versão de Nathan para o Teste de Turing, Caleb deverá avaliar se Ava, a versão mais atualizada da linha de robôs que o inventor anda construindo, consegue demonstrar emoções e se poderia ser confundida com um humano. Caleb logo nota as incongruências dessa versão da experiência, levantando a questão de que ele já sabe a priori que Ava é um robô. Caleb concorda com o empregado, mas justifica dizendo que aquela era sua interpretação do Teste, caprichos de um cientista.

 

 

O filme é a estreia sólida e competente na direção de Alex Garland, escritor de A praia e roteirista de Extermínio, Sunshine: Alerta Solar e Não me Abandone Jamais, para citar seus trabalhos mais conhecidos. Garland, que também assina o roteiro, aproveitou como pode um orçamento limitado – cerca de 15 milhões de dólares, quantia considerada pequena para os padrões hollywoodianos. Os efeitos especiais, um elemento chave em um filme de ficção científica, são muito bem feitos e utilizados na medida e na hora certa.

 

 

O filme não dá extensas explicações sobre a história, exigindo do expectador trabalho intelectual para compreender o que se passa. É como se entrássemos em uma história que já se desenrola, com certos elementos que precisamos nos esforçar para entender. Garland poupa-nos assim de um didatismo desnecessário.

 

A trama divide-se em sete “sessões”, indicadas na tela através de intertextos.

 

Ava e Caleb se veem separados apenas por uma parede de vidro e de imediato começam a conversar. O envolvimento dos dois vai se tornando cada dia mais complexo, pelo menos da perspectiva de Caleb (aquela que acompanhamos). Cada “sessão” entre os dois é monitorada de forma remota por Nathan.

 

Durante os constantes e misteriosos cortes de energia, quando não é possível para Nathan monitorar a dupla, Ava aproveita para chamar a atenção de Caleb sobre as intenções do CEO. O alerta: não se deve confiar no chefe.

 

O roteiro então muda de foco: sai o deslumbramento com a tecnologia secreta e com a bela robô e entra em cena a tensão do não dito entre Caleb e Nathan. Inicia-se entre os dois homens um jogo de provocações e desconfiança, em meio a diálogos cheios de malícia e tensão. No meio disso fica Ava, numa dicotomia de sentimentos, isto é, o ódio a seu inventor e um carinho crescente por Caleb.

 

Ava deseja desesperadamente escapar da mansão-laboratório, conhecer o mundo que há para além das paredes de vidro do lugar, um “luxo” que Nathan nunca lhe concedeu. Caleb, por sua vez, vai sendo tragado pela atmosfera inquietante do jogo, até chegar ao ponto de questionar se ele mesmo não seria um robô inconsciente de sua origem. A cena em que Caleb tenta à sua maneira tirar essa dúvida é uma das mais angustiantes do filme.

 

No final, Ava alcança seu sonho, às custas tanto de Nathan e Caleb, vítimas, ao fim e ao cabo, do complexo jogo de manipulação da robô. Implacável, ela mata seu Frankstein e deixa Caleb trancado na mansão para irremediavelmente morrer sozinho.

 

Como o título sugere, as reais intenções de Ava revelam-se como o deus ex machina da história, ou seja, a inesperada e grande revelação. Mais inteligente que seu “interrogador” e seu criador, ela envolve ambos em seu plano de escapar do lugar. Suas aparentes demonstrações de amor por Caleb foram apenas armas sofisticadas usadas para conseguir seu objetivo, ou seja, escapar do lugar.

 

No entanto, não diria que Ava é a vilã da história. A robô, que à maneira de Nathan e do diretor Alex Garland, mostra que dominou o Teste com maestria.

 

 

Autor: conversandosobrefilmes

Sou doutoranda em História e tento ver filmes com regularidade. Publico aqui sobre obras que de alguma forma me afetaram. Como o nome do blog diz, é uma conversa e não uma análise ou crítica aprofundada. Bem-vindos! :)

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