Uma lição de altruísmo com “Os capacetes brancos”

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Diretor: Orlando von Einsiedel

País e ano: Reino Unido, 2016

Duração: 41 minutos

Disponível: Netflix

Destaque: Oscar de Melhor Documentário em Curta-Metragem (2017)

A situação dos civis na Síria é desesperadora. Encurralados no meio da guerra entre o regime do presidente Bashar Al-Assad e membros do Estado Islâmico, homens e mulheres inocentes têm convivido com o horror desde 2011, ano do início do conflito.

Já há uma geração de sírios que inicia sua vida não tendo outra realidade que a da destruição, das bombas e do medo de que sejam os próximos alvos.

“Papai, bom!” diz o filho de 2 anos de um dos voluntários dos White Helmets, organização cujo objetivo principal é resgatar feridos ou mortos debaixo dos escombros. Basicamente o que os mais de três mil voluntários e voluntárias da entidade fazem vai contra o instinto humano: quando ouvem o som de um caça, seguido pelo barulho estridente de uma explosão, correm para o local atingido. Atuam em uma realidade onde bombeiros e policiais deixaram há muito de existir.

É o trabalho e treinamento destes homens que o diretor Orlando von Einsiedel retratou com Os Capacetes Brancos (Reino Unido, 2016), ganhador do Oscar de Melhor Documentário em Curta-Metragem deste ano.

Em seus 41 minutos, o documentário alterna entre 1 – cenas em que os voluntários partem para a ação, trabalhando de forma incansável no resgate; 2 – depoimentos de três White Helmets e 3 – o treinamento de um mês na Turquia de um grupo de voluntários para que pudessem se especializar em resgate e primeiros socorros.

Há certa controvérsia em torno da organização White Helmets. Alguns céticos e até mesmo detratores, acusam a organização de receber financiamento dos mais diferentes lados: desde a Al-Qaeda e o Estado Islâmico, até do Reino Unido e dos Estados Unidos. Vá entender.

Capecetes Brancos não entra nesta questão nem se propõe explicar detalhes tais como a fundação do grupo, seu crescimento ou estrutura. Von Einsiedel foca na perspectiva dos voluntários sobre seu trabalho e sobre a guerra, uma escolha acertada. Assim, somos deixados com os depoimentos de homens como Khalid Farah, Mohammed Farah e Abu Omar, “simples” alfaiates, pedreiros e ferreiros antes de se tornarem heróis até então anônimos.

Em nenhum momento os voluntários choram, apelam ou tentam defender algum ponto político. Ao invés disso, encaram a câmera com seriedade e explicam o que fazem numa chave humanitária impossível de negar. Diante de frases como “É nosso dever salvar qualquer acidentado” e “Considero todos como se fossem da minha família” só resta a nós, expectadores, emudecermos perante o heroísmo desses homens.

Uma impressão muito grande que o documentário dá é que os White Helmets, mesmo por exercerem um trabalho tão importante na falta de qualquer braço do Estado, estão longe de estarem protegidos. Ao contrário, segundo o que apontam vários membros no documentário, o posto converte-os em alvo direto do regime de Hassad e de seu principal aliado, o governo russo. É impossível assistir ao filme sem pensar que algum daqueles homens entrevistados ou suas famílias pode ser o próximo alvo. Para se ter uma ideia, só em Aleppo, a maior cidade da Síria (a capital é Damasco), mais de 200 mísseis são lançados diariamente.

Altruísmo é a melhor palavra que encontro para definir os White Helmets. O documentário Capacetes Brancos lembra-nos que há pessoas mundo afora passando por martírios imensuráveis e que, mesmo a despeito de toda dificuldade, mostram o verdadeiro significado do termo “solidariedade”.

Autor: conversandosobrefilmes

Sou doutoranda em História e tento ver filmes com regularidade. Publico aqui sobre obras que de alguma forma me afetaram. Como o nome do blog diz, é uma conversa e não uma análise ou crítica aprofundada. Bem-vindos! :)

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