“Twin Peaks” voltou. Mas será que temos motivos para comemorar?

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O retorno da série Twin Peaks era aguardado como um dos grandes eventos da televisão norte-americana deste ano. O burburinho era justificado pela comoção que as duas primeiras temporadas haviam provocado no início dos anos 1990, quando foram ao ar pelo canal ABC. A qualidade e a diversidade das séries de então era muito diferente do que há hoje à disposição aos telespectadores. Neste sentido, Twin Peaks foi um sopro de ousadia e inovação: a lógica já certa do mistério envolvendo um assassinato misturada com a peculiaridade dos moradores da cidadezinha de Twin Peaks. Além disso, foi uma das primeiras incursões na televisão de um artista em carreira ascendente no mundo do cinema, uma passagem que até então se dava quando um ator ou diretor começava a perder prestígio ou a entrar em esquecimento.

A primeira temporada da série teve uma recepção estrondosa. Quase um milhão de pessoas viram os primeiros episódios, numa época sem redes sociais como canal de divulgação. Ironicamente, Twin Peaks foi cancelada no final da segunda temporada devido à perda de audiência. Lynch havia se afastado no segundo ano da série e com a revelação do assassino de Laura Palmer já nos primeiros episódios da segunda temporada, os roteiristas tentaram sustentar a trama com um novo assassino, Windom Earle que chegara à Twin Peaks em busca de vingança contra o agente Cooper. Caído de paraquedas na história, pouca gente se importou com sua história.

Com o passar dos anos, no entanto, Twin Peaks ganhou o status de cult, sendo celebrada como um dos principais eventos da história da TV dos Estados Unidos. Era a série que havia mudado ou até mesmo elevado os padrões artísticos na TV, servindo de inspiração para outras séries, como por exemplo Arquivo X.

Dessa forma, quando seu retorno foi anunciado pelo canal Showtime em 2014, muita gente vibrou, eu inclusa. As notícias que seguiram o anúncio não podiam ser mais animadoras: seriam ao todo dezoito novos episódios, todos escritos por Mark Frost e David Lynch e dirigidos pelo último. Intitulada, Twin Peaks – O Retorno, a terceira temporada estreou no dia 21 de maio com um público relativamente modesto: pouco mais de meio milhão de pessoas assistiram aos dois primeiros episódios. Aqui no Brasil, o Netflix está disponibilizando um novo episódio toda segunda-feira, menos de 24 horas depois da exibição nos Estados Unidos.

Passados onze episódios desde sua estreia, o que temos até então? Será que Lynch e Frost estão conseguindo corresponder às altas expectativas dos fãs depois de um hiato de mais de 25 anos?

O primeiro fato que chama a atenção foi a ampliação do cenário onde a nova trama se passa: a cidadezinha de Twin Peaks virou apenas uma fração do mistério. Las Vegas, Buckhorn (Dakota do Sul), o deserto do Novo México e Nova York entraram no escopo da série. Enquanto isso, o subtítulo da série, “O Retorno”, parece se aplicar à volta da sanidade do mais querido agente especial do FBI, Dale Cooper, depois de ficar preso por mais de duas décadas no Black Lodge. Cooper, de volta à nossa dimensão, tomando o lugar de seu outro “eu”, Dougie Jones, desmembrado por sua vez do duplo de Cooper, o “Mau Cooper” ou Mr.C, por enquanto é só uma fração daquele excêntrico e brilhante policial que chega à Twin Peaks após a morte de Laura Palmer. Um lento e desmemoriado Cooper cai de paraquedas na vida de Jones, um jogador inveterado, cuja família incluem a esposa Jany-E e o filho Sunny Jim. A interação de Cooper nos ambientes ou com as pessoas com quem Dougie convivia são um dos alívios cômicos da série, mas também um de seus desapontamentos. Um dos fascínios de Twin Peaks era ver como Cooper, com seus métodos nada ortodoxos, avançava na investigação do assassinato de Palmer.

Os novos episódios foram anunciados junto com o mote “Está acontecendo de novo” e o mais lógico seria pensar que algo de estranho ocorreria em Twin Peaks, envolvendo os personagens icônicos da série original. Ainda não ficou claro o que de fato está se repetindo, nem se isso ficará claro final da temporada. Um palpite seria acreditar na volta da personificação do mal/Bob, agora em Ricard Horne, o filho de Audrey Horne, que parece ser o fruto de um estupro que ela sofreu por Mr.C.

Lynch/Frost apostaram pesado em um fatoque todos os fãs dão como certo, de que é difícil achar uma lógica para todos os eventos de Twin Peaks, e usaram a liberdade artística que o Showtime lhes deu para criar episódios experimentais e bonitos – é preciso admitir, mas também confusos e morosos.

Para mim grande parte da atração da série original era a esquisitice dessa cidadezinha incrustrada em Washington e o fato de que ela funcionava como um microcosmo tanto do que havia de mais bondoso na humanidade (se pensamos em Big Ed, Pete Martell, o xerife Harry S. Truman, a sociedade secreta BookHouse Boys) quanto do que poderia existir de pior (Benjamin Horne, os irmãos Renault, Catherine Martell e Leo Johnson). Agora, aumentada a dimensão da série, fica difícil saber qual a importância da cidade que dá nome à série para este “retorno” – seja o que for que ele represente.

O que me impede de dizer que Twin Peaks – o Retorno seja ruim são as atuações de grande parte do elenco e a química entre alguns atores durante as cenas, criando sequências e frases que definitivamente vão ficar na memória dos fãs. Kyle MacLachlan está fazendo o que pode com um roteiro sem muito pé nem cabeça, oscilando entre o impiedoso Mr. C. e o “ausente” Dougie Jones; Naomi Watts está excelente como a esposa tresloucada de Dougie (é como se seu personagem tivesse feito parte de toda a série, dada a naturalidade da atriz de se apropriar da história), Miguel Ferrer está fazendo mágica com as linhas de roteiro que recebe e, de volta à Twin Peaks, Mädchen Amick (Shelly), Michael Horse (Hawk) e Danna Ashbrook (Bobby) são um consolo aos fãs carentes da magia dos episódios dos anos 1990.

Faltando apenas sete episódios para o fim da temporada, está cada vez mais claro que nem todas as histórias apresentadas no retorno serão amarradas ou esclarecidas – talvez nada mais Lynchiano que isso. Fica-se a impressão de que seria melhor se Frost e Lynch tivessem permanecido em Twin Peaks e dado aos fãs, aqueles que no final das contas alimentaram por anos o fascínio sobre a série, aquilo que faria mais sentido reviver.

 

Autor: conversandosobrefilmes

Sou doutoranda em História e tento ver filmes com regularidade. Publico aqui sobre obras que de alguma forma me afetaram. Como o nome do blog diz, é uma conversa e não uma análise ou crítica aprofundada. Bem-vindos! :)

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