“Dunkirk”: inovador, bonito, mas nem tanto para uma “obra prima”

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Dunkirk, novo filme de Christopher Nolan (Amnésia, Trilogia Batman, A origem e Interstelar) é um feito cinematográfico e uma inovação no gênero filme de guerra. Obra prima? Nem tanto.

Com mais de 70% de sua filmagem feita em IMAX, o filme, como era de se esperar, tem cenas lindas e também audaciosas, com planos amplos e ângulos audaciosos (as câmeras foram posicionadas nas asas de aviões, por exemplo).

A novidade que o filme traz para o gênero fica por conta de seu enredo: Nolan, que também assina o roteiro, não se aprofunda muito na história de nenhum personagem neste episódio que conta a evacuação de tropas inglesas da praia francesa de Dunkirk. Na interpretação de alguns críticos, essa opção narrativa deixou a história rasa, sem densidade, mas não acredito que essa crítica se aplique. Há um claro objetivo de Nolan com essa estratégia: indicar que na guerra o medo de morrer e ser deixado para trás transforma homens em uma massa de anônimos. O heroísmo na visão do diretor/roteirista não está em atos altruístas ou valentes, mas no fato de sobreviver.

Contribui para aumentar a sensação de anonimato na guerra a disposição dos extras nas cenas: a formação das tropas na praia, em filas longuíssimas, esperando em vão que navios possam resgatá-los; além da reação quase sincronizada aos bombardeios aéreos alemães que tentam malograr as tentativas de resgate.

O alto som das metralhadoras, bombas e torpedos, junto com a trilha sonora de Hans Zimmer, colaborador de longa data do diretor, aumentam a tensão das cenas e, na falta de um jargão mais original, constituem quase um personagem a parte na história.

São os elementos acima mencionados o suficiente para alçar Dunkirk ao posto de “obra prima”? Até poderia ser, se não fossem suas falhas.

Para uma produção que está sendo aclamada do ponto de vista técnico, a edição do filme deixou a desejar. Ela ficou a cargo de Lee Smith, editor de O Cavaleiro das Trevas, O Cavaleiro das Trevas Ressurge e A Origem. Para começar, quase não há menção, no início do filme, de se tratarem de três temporalidades: uma semana (no caso do molhe), uma noite (no mar) e uma hora (no ar). A informação é dada, mas o letreiro é mostrado tão rápido que é o tipo de coisa “piscou, perdeu”. Outro exemplo de deslize fica por conta do confronto entre o personagem de Cillian Murphy e o menino George, interpretado por Barry Keoghan. A briga entre os dois é tão estranha que em um momento estão se enfrentando e no outro George já está caído no chão, chorando. O embate fica ainda mais artificial porque, por conta desse “empurrão”, George acaba morrendo.

Outro ponto que gera desavenças é sua classificação etária de 13 anos, o chamado PG-13. Por trás da estratégia tem-se a tentativa de conquistar um público mais amplo, abocanhando parte dos espectadores de férias no verão nos Estados Unidos. Como consequência, Dunkirk é “limpo”, sem o sangue e o aspecto visceral das mortes.

Dunkirk é um blockbuster de autor. Dos diretores em atividade que podem trabalhar com orçamentos tão polpudos (o de Dunkirk foi de 100 milhões de dólares), Christopher Nolan é o que faz os filmes mais bonitos, artísticos e autorais. É só uma pena que haja tantos elementos comprometendo-o e impedindo-o de ser considerado, no final das contas, um dos grandes de sua carreira.

Autor: conversandosobrefilmes

Sou doutoranda em História e tento ver filmes com regularidade. Publico aqui sobre obras que de alguma forma me afetaram. Como o nome do blog diz, é uma conversa e não uma análise ou crítica aprofundada. Bem-vindos! :)

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