“mãe!”: Jennifer Lawrence não é capaz de salvar o provocativo, mas prepotente filme

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As alegorias dominam “mãe!”, último filme de Aronofsky. Não é de se admirar dada a simplicidade da história: um renomado poeta e sua mulher vivem numa casa no meio do nada, daquelas que só existem nos filmes mesmo, um paraíso perdido que “mãe” (assim mesmo em minúscula, enquanto o poeta é “Ele”, em letra maiúscula, segundo ditames de Aronofsky, também o roteirista) reconstruiu inteira e sozinha. Enquanto “mãe” está dando os retoques finais neste lar, seu marido está no meio de um bloqueio criativo. A aparente paz de “mãe” e “Ele” é abalada com a chegada do casal composto por Ed Harris e Michelle Pfeiffer. A partir daí, o filme caminha num crescendo de inquietude até beirar o absurdo.

[SPOILERS A PARTIR DAQUI]

Não há nenhuma indicação em “mãe!” para o significado de toda aquela simbologia, e isso é apenas um dos inúmeros defeitos da obra. Após terminada a exibição, é praticamente obrigatório ir à Internet para tirar algum sentido do filme. Aparentemente, cheio de alusões bíblicas, o personagem “mãe” é uma alegoria da mãe… natureza e o profeta, nada menos que Deus. Harris e Pfeiffer são Adão e Eva, que, após serem criados pela entidade suprema, (bem, estamos no Brasil, onde quase todo mundo “nasce” sabendo a história) são expulsos do paraíso depois de provarem o fruto proibido – no filme, um cristal que tem o poder de restaurar a casa.

Como espectador, é fácil embarcar na confusão de “mãe” com o que acontece em sua casa após a chegada do casal Harris/Pfeiffer. Se compramos a metáfora do diretor, a residência nada mais é do que a extensão do corpo de “mãe”, personagem e espaço tornando-se um ser único. Cada vez mais invadida e mutilada, sua revolta é compreensível e quase celebrada pelo espectador que vê a casa sendo pouco a pouco destruída. Só que Aronofsky pesa a mão para falar de mudanças climáticas, extremismo e idolatria – se era mesmo disso que ele queria dizer. Em um minuto a residência está cheia de convidados para um velório e no outro já virou um campo de batalha e de extermínio. Não há tempo para respirarmos e assimilarmos todas as ideias.

Após passada um pouco da minha raiva com “mãe!” (esse era o sentimento que me dominada quando os créditos finais apareceram), até consigo apreciar um pouco do que Aronofsky tentou realizar. O filme nos faz indagar o tempo todo no que está acontecendo, é provocativo, mas são tantos os significados escondidos por trás da história que o resultado é um trabalho fruto de uma direção e escrita prepotentes, no estilo “só os inteligentes conseguirão entendê-lo”.

Outra coisa que me incomodou bastante foi a exploração gratuita de Jennifer Lawrence. A atriz é exposta à violência física e mental e à humilhação em muitas cenas. Além disso, sua personagem, embora represente a natureza e quase por extensão nosso planeta, é unidimensional, sem profundidade: ela vive para agradar seu marido e para garantir que o lar que construiu seja um ambiente inspirador para seu artista.

Para muita gente, a cena mais chocante do filme é o bebê do casal sendo morto e comido pelos seguidores de “Ele” (sim, a referência não é nada sutil: o bebê de “mãe” é Jesus Cristo e o canibalismo é o ritual da comunhão na Igreja Católica; algo que, se formos pensar, é de fato meio doentio). Óbvio que a cena é perturbadora, mas para mim nem tanto quanto Jennifer Lawrence apanhando pra valer dessa mesma massa de seguidores, levando chutes, socos e tendo suas roupas rasgadas.

Horrorizada, “mãe” finalmente toma uma atitude com relação aos intrusos de sua casa. Bota fogo em tudo, em si, na casa e em seus ocupantes, levando todos à aniquilação, menos “Ele”. No final da história, moribunda, “mãe” permite que “Ele” extraia seu coração, um último sacrifício daquela que tudo deu. Seu órgão acaba se transformando no cristal que dá vida à casa no começo da história, num looping que sempre se repetirá.

Mão pesada do diretor/roteirista, excesso de alegorias e, para completar a confusão, um estúdio que não sabe vender seu filme. Isso porque “mãe!”, diferente do que a Paramount quer que acreditemos, não é um filme de terror e, como filme mais artístico, não deveria ter um lançamento em tantas salas de cinema, como pelo menos ocorreu nos Estados Unidos. A estratégia de marketing saiu pela culatra e em seu final de semana em cartaz, o filme, com um orçamento de 33 milhões de dólares, “só” arrecadou 7 milhões. Agora, duas semanas após sua estreia, aproveitando-se da controvérsia que gerou, o estúdio está divulgando cartazes com Jennifer Lawrence com metade do rosto mutilado, enquanto a outra metade da face está normal. No lado dos machucados, críticas ao filme; no outro, elogios e resenhas positivas. Uma frase aparece mais destacada: “Veja o filme que todos estão falando”. Outro tiro no pé. O cartaz é apelativo e inapropriado e com um último suspiro, tenta se aproveitar da controvérsia que gerou. Uma das mais requisitadas atrizes norte-americanas da atualidade merecia muito mais e nós, admiradores de Aronofsky, também. Um trabalho seu para ser esquecido.

 

 

 

Autor: conversandosobrefilmes

Sou doutoranda em História e tento ver filmes com regularidade. Publico aqui sobre obras que de alguma forma me afetaram. Como o nome do blog diz, é uma conversa e não uma análise ou crítica aprofundada. Bem-vindos! :)

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