“BR2049” é uma obra de arte, o que atrapalha é… ele.

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Blade Runner é um daqueles clássicos cults que justamente por ser muito bom sobrevive à ação do tempo e do avanço da tecnologia no cinema. Sendo assim, era quase natural que os fãs e o público em geral recebessem com certo ceticismo a notícia de que o filme ganharia uma sequência mais de três décadas depois e dirigida por outro nome que não o de Ridley Scott (o trabalho ficou a cargo de Denis Villeneuve [A Chegada, Sicario, Os suspeitos e Incêndios]). Essa ficção científica de 1982 também é celebrada por conter um dos mistérios (senão “O” mistério) mais envolventes do cinema: seria seu personagem principal, o policial Rick Deckard, também um androide, um replicante, igualando-se assim àqueles que deveria caçar? Apesar de uma remasterização e de uma versão do diretor, a origem de Deckard nunca ficou clara (isto é, dita em cena) e a dúvida permanece até hoje, para o bem dos fãs.

 

Tamanha pressão em cima de Villeneuve e companhia só aumentou ainda mais a satisfação com Blade Runner 2049. Villeneuve fez um filme grandioso, com uma fotografia de tirar o fôlego e com direção firme e habilidosa. É como se Villeneuve aceitasse de vez a posição de novo grande diretor de Hollywood, juntamente com Christopher Nolan e J J Abrams, cada um com seu público fiel. Além da direção, é preciso reconhecer o brilhantismo da fotografia, a cargo de Roger Deakins, e da direção de arte do filme, de David Doran, que criaram (vários) cenários de tirar o fôlego. Por isso mesmo, é um daqueles filmes que se faz quase imprescindível ver no cinema, com a melhor qualidade de som e tela disponíveis.

 

O que fecha o julgamento de Blade Runner 2049 como uma obra de arte é sua ousadia. Villeneuve, claro, parte do original, mas não fica as quase 3 horas de duração prestando inúmeras homenagens ao clássico. É um filme com a sua marca e com sua leitura de como ambientar essa distopia trinta anos depois da primeira.

 

O roteiro centra-se no policial K/Joe, vivido por Ryan Gosling. Harrison Ford só entra na história quase na metade do filme e tem pouco a fazer. Numa mudança inteligente de enredo, a dúvida agora está no fato desse K ser o replicante nascido e não criado nos laboratórios da empresa agora responsável pela fabricação dos replicantes, a Wallace Corporation. Isso porque Gosling acaba descobrindo que uma replicante, Rachel, (o par romântico de Ford no filme original) deu à luz a uma criança. O nascimento de um replicante implica em toda uma revolução na produção de androides e sua localização torna-se vital tanto para os androides que integram a resistência, quanto pela empresa responsável por criá-los.

 

O personagem de Gosling é o mais exigido em termos emocionais porque tem que lidar com a dúvida de que talvez ele seja a criança, em 2049, claro, um adulto, que ele deve eliminar. Sua crença parte de uma memória que ele, enquanto androide, acredita que tenham implantado em seu sistema. Sua crise começa quando é dada a possibilidade de aquela memória seja na verdade uma experiência real sua.

 

É aí justamente onde reside o problema: na interpretação do ator canadense. Opinião polêmica, mas não é de hoje que acho esse ator bem limitado, com pouquíssimas expressões faciais. Ele estava perfeito como o motorista estoico de Drive, um dos meus filmes favoritos dos últimos anos, mas não acredito que ele consiga atuar em produções que demandem que ele mostre emoções diferentes. O homem simplesmente não consegue (ainda).

 

A atuação de Gosling, até mesmo a de Ford, interpretando a si mesmo olhando em retrospecto sua carreira (como o fez em Indiana Jones 4 e Star Wars – o Despertar da Força) e a falta do que fazer do personagem de Jared Leto são um dos poucos pontos fracos do filme. Também se pode argumentar que Blade Runner 2049 perde sua força no final, apostando o desfecho da história na reunião do pai Deckard e da filha, ainda não consciente de toda a história. O desfecho, um pouco melodramático, também é a deixa para uma sequência, um pouco improvável de acontecer dada a modesta bilheteria que o filme vem alcançando.

 

As poucas críticas não são suficientes para diminuir a beleza estonteante do filme, fechada ainda com chave de ouro pela trilha sonora de Hans Zimmer e Benjamin Wallfish. Uma verdadeira obra de arte, digna de ser reconhecida pelo público e pela temporada de premiações que se aproxima.

Autor: conversandosobrefilmes

Sou doutoranda em História e tento ver filmes com regularidade. Publico aqui sobre obras que de alguma forma me afetaram. Como o nome do blog diz, é uma conversa e não uma análise ou crítica aprofundada. Bem-vindos! :)

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