“Detroit em Rebelião”: um ótimo filme que quase ninguém viu

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Detroit em Rebelião foi uma incrível surpresa. É uma pena que quase ninguém no Brasil irá vê-lo. Exibido em poucos horários em alguns parcos shoppings, além dos habituais cinemas “de arte” do circuito Paulista da capital, é bem provável que o faturamento brasileiro do filme reproduza, em escala bem menor, os ganhos modestos que o longa teve nos Estados Unidos.

 

Na verdade, o cenário foi bem pior que esse. O último filme de Kathryn Bigelow (única mulher a ganhar um Oscar de melhor direção por Guerra ao Terror, de 2008) arrecadou a mísera quantia de 16 milhões de dólares em seu país de origem, 7 no final de semana de estreia.

 

Detroit em Rebelião retrata um incidente específico nos seis dias de motim ocorridos em julho de 1967, iniciados pela população de maioria negra em resposta à segregação e à violência policial, com uma força majoritariamente branca. Na madrugada de 25 para 26 de julho, uma batida policial cercou e invadiu o Motel Algiers, no coração da área dos motins, após ter ouvido sons de disparos vindos do local. Como resultado da operação, que além dos policiais da cidade envolveu também a Guarda Nacional (convocada a estar no local desde que a rebelião começara), 3 adolescentes foram mortos.

 

Nos dois primeiros atos, o filme retrata justamente esse episódio, enfatizando os momentos de tensão após a invasão dos policiais ao motel. Encurralados, nove homens negros e duas mulheres brancas foram obrigados a ficar horas em pé, enfileirados, com as mãos contra a parede, sofrendo uma série de torturas psicológicas e físicas dos policiais. Neste jogo de coerção, os 3 adolescentes, mesmo rendidos, foram mortos pelos policiais.

 

A polícia prendeu e indiciou 3 policiais que conduziram a ação, juntamente com Melvin Dismukes, vigia noturno que acompanhou parte da operação.

 

Esta parte do filme é praticamente perfeita, com grandes atuações tanto dos policiais racistas quanto dos detidos. O timing “histórico” do filme também não poderia ser tão oportuno: falas e trejeitos dos policiais se assemelham com os brados dos supremacistas brancos de Charlottesville, por exemplo. Como espectadora, também fui beneficiada pelo fato de não ter nenhuma informação prévia desse evento antes de ver o filme. Tinha uma noção sobre os motins de Detroit e o contexto político do “longo verão de 1967”, mas desconhecia toda a série de eventos envolvendo o Motel Algiers. Como resultado, tudo para mim poderia acontecer e me vi em todo esse tempo na beira da poltrona acompanhando com tensão o desenrolar da história.

 

Se o filme tem dois atos que beiram à perfeição, o terceiro e último, no entanto, fica muito aquém. As cenas do tribunal, de tão apressadas, quase não agregam informação ao desenrolar da história. Embora tocante, a sequência que mostra o músico Larry deixando a banda The Dramatics por conta de seu estresse pós-traumático com o incidente, parecem soltas e são uma escolha infeliz para terminar o filme.

 

O personagem de Melvin Dismukes, interpretado por John Boyega, também pode dividir opiniões. Embora o filme tenha sido promovido com Boyega como rosto mais conhecido (e, se esperava, com protagonismo na história), o que se vê na tela não corresponde aos clipes e às imagens do trailer. Dismukes/Boyega assume a função do espectador na sequência do motel, assim como o termo “audience surrogate” e pouco tem a fazer enquanto a batida policial se estende madrugada adentro. Como testemunha, sua presença não era ali desejada e logo ele sai de cena. O destaque mesmo fica para o grupo de atores responsáveis por interpretar todos os onze hóspedes encurralados pelos policiais e que acabam submetidos a seu jugo.

 

Arrisco dizer que talvez Detroit em Rebelião não tenha gerado interesse nos Estados Unidos justamente pela atualidade de seu tema. Cansados de saber e ver nos noticiários inúmeros casos de racismo e preconceito para com sua população negra, talvez os espectadores norte-americanos tenham preferido dar às contas a essa encenação tão atual. Afinal de contas, é no mínimo incômodo pensar que a base do pensamento racista destes policiais de 1967 não só perdura como encontra-se em ascensão na tenebrosa era Trump.

 

Autor: conversandosobrefilmes

Sou doutoranda em História e tento ver filmes com regularidade. Publico aqui sobre obras que de alguma forma me afetaram. Como o nome do blog diz, é uma conversa e não uma análise ou crítica aprofundada. Bem-vindos! :)

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